Carismas na Igreja
Por Equipe LeiaMe em 03-Dec-08 10:53
Dom Eugênio de Araújo Salles
Um afetuoso e verdadeiro relacionamento do sacerdote com o Cristo é fonte de extraordinária riqueza para todo o Povo de Deus.
A identidade dos pastores se manifesta na absoluta dependência de Jesus. E também no amor do Senhor e, por ele, ao rebanho pelo qual se entregou. A autêntica alegria do sacerdote está em sua vida ascética, no ânimo de retomar sempre de novo o caminho, com o espírito de total confiança, nos momentos de dificuldade. Outro motivo de contentamento é ter um rebanho e amá-lo, sem, no entanto, se esquecer de que ele é propriedade exclusiva do Senhor. Em tudo isso o padre haure a sua força no manancial inesgotável: o amor do Coração humano-divino do Salvador, Pastor feito cordeiro sacrifical por seu povo.
Cada fiel leigo porta consigo o sinal de sua pertença ao Corpo Místico que tem Cristo como Cabeça. Também é por uma total dependência de Jesus. E o manifesta pela ampla e irrestrita fidelidade na observância das diretrizes da Igreja, dirigida por seus legítimos Pastores.
Não só na sua vida terrena, mas agora na glória do Pai, Jesus leva todo o universo para o supremo louvor e adoração de Deus (1 Cor 15, 24.28). Esta nova humanidade, celebrando com Cristo e por Cristo o verdadeiro culto a Deus, é reunida na Igreja. Mesmo ainda peregrina, "a Igreja é, em Cristo, como que o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" ("Lumen Gentium", 1,1).
Todas as imagens utilizadas pelo Redentor para explicar a natureza da instituição por Ele criada, implicam na existência de uma organização hierárquica que, em sua dependência, deixa lugar para a livre e fecunda atuação do Paráclito. Cada carisma, "manifestação do Espírito para utilidade comum" (1 Cor 12,7) deve contribuir para o crescimento do Corpo de Cristo.
São inúmeros os dons que o Espírito Santo concede aos que a Cristo pertencem. Todo cristão ajuda no surgimento do homem novo, com as características da Redenção: a justiça, a paz, a caridade, a alegria. Desde já, neste mundo que contradiz o Evangelho, ele pode e deve participar da liturgia nova para a glória do Deus trino, "oferecendo o corpo em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o culto espiritual" (Rm 12,1).
Na escolha concreta de seu serviço a Deus e aos homens, Jesus não seguiu outro critério senão o da obediência. Humana e religiosamente falando, outros caminhos poderiam patentear mais diretamente a glória do Pai como, por exemplo, a destruição física de seus inimigos ou a posse como Messias-Rei no Templo. No entanto, sua entrega ao Pai e seu serviço salvador e libertador estão essencialmente marcados pela submissão "até à morte e morte de cruz" (Fl 2,8).
É por isso que nenhum carisma poderá pretender ocupar espaço na Igreja se seu louvor e ministério não trouxerem como identidade mais profunda a submissão a Deus e a disposição de participar da Cruz do Mestre. Paulo nos dá exemplo de estar pregado com Cristo na Cruz (Gl 2,19). E de forma mais clara, a plena e generosa aceitação da vontade divina tem sua dimensão visível na obediência ao ministério hierárquico. E aqui está o ponto nevrálgico da vida eclesial em nossos dias.
É verdade que o Espírito Santo pode repartir "a cada um como lhe apraz" (1 Cor 12,11). Ele abre novos horizontes. E é certamente neste tempo de insegurança, de valorização dos direitos do homem sobre os de Deus, como acontece às vezes também dentro da Igreja, que o Paráclito faz eclodir os carismas.
Tal configuração com o Cristo obediente identifica-se fundamentalmente com os genuínos novos impulsos e a verdadeira coragem, bem diversos das manifestações de poder e de orgulho provenientes do mundo.
Em todo momento, o cristão deve estar disposto a trazer "em seu corpo os traços da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste neste mesmo corpo" (Cfr 2 Cor 4,10).
O pastor, certamente, deve educar o povo para o uso verdadeiro desses dons gratuitos que aparecem em favor do bem comum. Eles se integram no culto definitivo e eterno do Cristo ressuscitado (1 Cor 15, 24.28), se contribuem direta ou indiretamente para a purificação, propagação e unificação da Igreja, também em sua estrutura visível e hierárquica.
Neste sentido, o Concílio Vaticano II exige que os portadores dos carismas sejam aptos e prontos – pela ação do Espírito Santo – a tomarem sobre si o que ajuda à renovação e maior incremento da Igreja (Cfr "Lumen Gentium", 12,2). No momento, cabe uma advertência em matéria de suma gravidade. Certas correntes de pensamento no campo religioso ferem dolorosamente o sinal de Deus, a unidade da obra do Cristo. Rasga-se a túnica inconsútil que até os soldados romanos respeitaram (Jo 19,24). Isto ocorre com a tentativa de construírem Igrejas à própria semelhança. Esse o fruto do Maligno que se expressa pelo subjetivismo que molda a estrutura eclesial às próprias concepções.
A capacidade de sofrer com Cristo na Cruz (Cfr Gl 2,20) é a marca fundamental de autenticidade do carisma. Porque sem a disposição de "completar em sua própria carne o que falta às tribulações de Cristo, por seu corpo que é a Igreja" (Cl 1,24), o cristão cultivaria talvez belos interesses subjetivos, mas não seria "útil às necessidades da Igreja" ("Lumen Gentium" 12,2). O batismo nos inseriu em uma comunidade fundada por Jesus que a confiou a Pedro e ao Colégio Apostólico, sob a direção do Espírito Santo.

