Os carismáticos: curas e discernimento

Padre Gabriele AmorthDo livro Um exorcista conta-nos, de Pe. Gabriele Amorth (Ed. Paulinas)

O Espírito Santo distribui com divina liberdade os seus carismas a quem quer e como quer; não são dados para a glória ou utilidade dessa pessoa mas para o serviço dos irmãos. Entre os carismas encontra-se o dom da libertação dos espíritos malignos e o dom da cura física. Trata-se de dons que podem ser concedidos a indivíduos mas também a comunidades. Não dependem da santidade da pessoa, mas da livre escolha de Deus. A experiência entretanto prova que, habitualmente, Deus concede estes dons a pessoas retas, que rezam com assiduidade, que observam uma vida cristã exemplar (o que não significa que não tenham defeitos!) e que demonstram uma verdadeira humildade. Hoje em dia há uma inflação de carismáticos a quem acorre uma multidão de pessoas que sofrem. Como distinguir os verdadeiros dos falsos? Esse discernimento cabe à autoridade eclesiástica que se pode servir de todas as formas de ajuda que considere oportunas para discernir.

De fato, conhecemos alguns casos em que a autoridade eclesiástica interveio para nos pôr de sobreaviso contra os charlatães e falsos carismáticos; não tenho conhecimento de carismáticos reconhecidos oficialmente. Trata-se de um problema muito complicado e muito difícil de resolver; até porque os carismas podem cessar e pode acontecer que a pessoa que tinha sido escolhida já não seja digna deles: nenhum ser vivo está confirmado na graça. Podemos enunciar quatro regras orientadoras: 1º que o indivíduo (ou a comunidade) viva intensamente conforme o Evangelho; 2º que seja totalmente desinteressado (e recuse todas as ofertas; aceitando-se ofertas pode-se ficar milionário); 3º que utilize os meios comumente admitidos na Igreja, sem excentricidades ou superstições (que utilize orações e não fórmulas mágicas; sinal da cruz, imposição das mãos sem nada que ofenda o pudor; que utilize água benta, incenso, relíquias sem nada que seja estranho ao normal uso eclesiástico); que reze em nome de Jesus; 4º que os frutos sejam bons. A regra evangélica: "é pelo fruto que se conhece a árvore" (Mt 12,33) constitui sempre o critério fundamental.

Acrescentemos outras características que são típicas das curas obtidas pela via carismática: agem sobre todas as doenças mesmo maléficas, isto é, provocadas pelo demônio; não se fundamentam na capacidade ou na força humana mas na oração feita com fé, na força do nome de Jesus e na intercessão da Virgem e dos santos; o carismático não perde a energia e não tem, portanto, necessidade de descansar para retomar forças (como fazem os curandeiros, os vedores e similares), não se verificam reações físicas pois é apenas um intermediário ativo da graça. As curas carismáticas não tendem a elevar o carismático a um pedestal, mas a louvar a Deus e fortalecer a fé e a oração.

Parece-me apropriado acrescentar ainda algo a este respeito porque, tudo isto é um campo que o Concílio Vaticano II falou, mas não aplicou o que afirmou. O racionalismo e o naturalismo invadiram o terreno; as manifestações extraordinárias, os milagres, a presença dos santos, as aparições, são tudo coisas que não são acolhidas com reconhecimento, mas com desconfiança, com reprovação, que não se examinam ou que, pelo menos são consideradas como terrivelmente monótonas. Todas as Igrejas abandonaram as orações dos primeiros cristãos: "E agora, Senhor, concede aos Teus servos o poderem anunciar a Tua Palavra com todo o desassombro, estendendo a Tua mão para se operarem curas, milagres e prodígios em nome do Teu Santo Servo Jesus" (At 4,29-30). Parece que nestes dias, estes dons só fazem tédio.

O Vaticano II afirma que o Espírito Santo "concede graças especiais aos fiéis de hoje... Estes carismas, quer sejam extraordinários ou mesmo mais simples ou comuns, devem ser acolhidos com reconhecimento e devoção". Este documento continua lembrando em seguida que os dons extraordinários devem ser observados com prudência. Quanto ao ajuizamento da sua genuinidade e boa utilização "é do foro da autoridade eclesiástica que deve, sobretudo, cuidar em não extinguir o Espírito, examinando todas as coisas e retendo o que é bom" (LG 12). A falta de aplicação destas diretivas é evidente e quase geral. Por esta razão, é inútil que o Concílio afirme que quem recebe carismas do Espírito Santo, mesmo que seja leigo, tem o direito e o dever de os exercer (AA 3) sob a direção e julgamento dos bispos. Alegro-me com o aparecimento de organismos como o Movimento Carismático de Assis, que se oferecem para ajudar os bispos no seu trabalho de discernimento. Trata-se de um campo aberto que está a atuar.

Compartilhe: