Discernimento dos espíritos: alguns enganos do demônio

Do livro Discernimento dos Espíritos, de Juan Bautista Scaramelli

O Pai da Mentira tem muitas maneiras de deformar os homens. Todos vivemos a tentação e o vício de uma forma ou de outra, em mais de uma ocasião. Mas em algumas oportunidades, Deus permite que o ataque seja mais sensível, para a formação espiritual de seus filhos e humilhação do tentador. Aqui contamos alguns casos felizes e outros nefastos na atuação de quem passou por estes artifícios infernais.

Querendo o Apóstolo explicar as ilusões com as quais o demônio engana as almas mal avisadas, diz que "o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz" (2 Cor 11,14). Vedes aqui as aparências e as ilusões com as quais o enganador faz o falso parecer verdadeiro. Como os anjos do céu, enviados por Deus para consolar ou para instruir ou animar a seus servos, e algumas vezes também para manifestar a eles as coisas futuras, costumam vir coroados de raios e resplendores muito devidos a seu glorioso estado, também ele se cobre com um manto de luzes e esconde com elas sua fealdade, para parecer o que não é. E como os anjos emitem suas embaixadas com vozes claras, que ressoam nos ouvidos do corpo e no profundo do coração, também ele finge semelhante modo de falar e faz penetrar um som semelhante nos ouvidos do corpo ou no coração.

Recordemos que o desejo do demônio é sempre de nos arruinar. Basta dizer que Santo Antônio viu em uma ocasião todo o mundo semeado de laços, os quais não significavam outra coisa que as falsidades, as astúcias e fraudes que o demônio arma – em formas mais ou menos explícitas – para nos fazer cair e precipitar-nos no abismo de todos os males.

Assim o inimigo tentou enganar o santo ermitão Abraham, segundo o relato que nos faz Santo Efrém. Encontrando-se o santo solitário recolhido em devota oração, viu de improviso resplandecer todo o seu quarto com uma bela luz que da noite fazia dia claro, e ouviu que lhe diziam estas palavras: "Feliz és tu, Abraham, que não tens igual; porque cumpriste em tudo a minha vontade" (Santo Efrém em "A vida de Santo Abraham"). Mas Abraham, como quem tinha o verdadeiro espírito do Senhor, entendeu logo quem era aquele que vinha visitá-lo com pompa de tanta luz, e que lhe dava anúncio tão feliz; e assim lhe lançou desprezo, dizendo-lhe: "Afasta-te de mim, espírito falaz e enganador. Não sou como tu me dizes: sou um miserável pecador. Com tudo isso tenho em minha defesa Jesus Cristo, em cujo nome te afasto, cão infernal".

Do grande São Simão Stelita conta Antônio, seu discípulo e escritor de sua vida, que um dia lhe apareceu o demônio rodeado de formosos resplendores, sobre um carro de fogo, e próximo à coluna em que havia vida celestial, distante de toda relação humana, disse-lhe: "O Senhor me enviou do Paraíso, como seu mensageiro, para que te arrebate ao céu, como arrebatei a Elias em outra ocasião, e em um carro semelhante o transportei. Sobe, pois, e vamos ao céu, onde os anjos, os Apóstolos, os mártires, com Maria, Mãe de Deus, esperam com ansiedade sua chegada" (Antônio em "A vida de São Simão Stelita"). Coisa maravilhosa! À chegada daquele falaz mensageiro o santo não percebeu a mentira. Deu crédito ao embuste (quiçá o permitiu Deus, para nos fazer mais cautelosos). Levantou o pé para subir naquele carro flamejante. Mas o que aconteceu então? Fazendo nesse ato o sinal da cruz, desapareceram imediatamente o carro, os cavalos e o mensageiro, e se desvaneceu de seus olhos num instante aquela falsa luz.

Fato semelhante Paladio conta de São João, que predisse com espírito profético uma insigne vitória ao Imperador Teodósio. Também lhe apareceu o demônio em bela figura, sobre um carro muito luminoso, prometendo-lhe transportá-lo às estrelas se, dobrando os joelhos, o adorasse. Mas João, guiado pela luz celeste, percebeu a fraude e lhe respondeu: Eu adoro ao Rei do céu, que tu não és (Paladio em "Louvores"). A esta recusa, desapareceu a visão e o urdidor da trama se afastou confuso.

Outras vezes o inimigo infernal se transfigura em outras formas. Para enganar as almas recolhidas em Deus, toma a figura de algum santo ou santa, e o temerário toma às vezes a semelhança do próprio Jesus Cristo, para dar crédito à falsidade com aquela falsa aparência, e autenticar a mentira. Nesta forma se apresentou diante de São Pacômio, dizendo: Eu sou Cristo, que venho a ti, meu servo fiel, para visitar-te (Dionísio em "A vida de São Pacômio"). Mas o santo, não experimentando em si aqueles efeitos de paz, de quietude e serenidade que costumavam causar-lhe as verdadeiras aparições do Redentor, afastou-o com indignação e repulsa, dizendo-lhe: "Afasta-te de mim, diabo; que és maldito, e maldita é tua visão". Então se foi o demônio e, deixando horrível fedor, disse: Eu te teria ganho com minha mentira, se não o houvesse impedido o Redentor com Seu poderoso braço: mas nem por isso perco o ânimo; jamais deixarei de te fazer dura guerra.

Mas o que neste particular nos deve encher de um justo e santo temor é saber que o demônio, com estas suas armações, não somente enganou os olhos de homens santos, mas talvez os tenha cegado totalmente. É digno de lágrimas o caso de Paladio de Valente, monge de grande virtude. A este começou a lhe aparecer o demônio em forma de anjo muito resplandecente, e encontrando credulidade no homem simples, voltava freqüentemente a enganá-lo com estas aparições. De modo que o infeliz, parecendo-lhe que se havia introduzido entre os coros dos anjos, e admitido a tratar familiarmente com eles, elevou-se com soberba, como se tivesse chegado a ser um deles. Então o inimigo, vendo-o tão disposto a receber os enganos, ganhou-o de todo com outra ilusão muito forte. Colocou-lhe diante dos olhos uma grande procissão de mil anjos, todos com tochas acesas e resplandecentes nas mãos. Ao fim dela, vinha um personagem de aspecto mais formoso e digno, que representava a pessoa de Cristo. À sua chegada um dos anjos que estavam a seu lado, voltado para o monge, disse-lhe: "Valente, Cristo te ama tanto, que veio visitar-te acompanhado de tão nobre comitiva; sai logo ao seu encontro, e adora-o profundamente". Saiu imediatamente o monge de sua cela e o adorou. Nesse ato lhe tomou tanto o espírito de soberba, que tendo entrado pouco depois na igreja com outros monges, começou a dizer como um louco e desatinado: "Eu não preciso comungar, porque hoje mesmo vi Jesus Cristo com meus olhos". Os monges, ao ouvir declaração tão ímpia, ficaram escandalizados e encerraram-no por um tempo (Paladio em "Louvores").

Nem são menos lastimosas as quedas que Casiano conta de monges santos, pervertidos pelo demônio com revelações falsas e representações vãs. Ele chora a ruína de um ancião de nome Eron, o qual, depois de cinqüenta anos de vida passada na solidão, fora do trato e da conversa com os monges, com tanta austeridade que fazia escrúpulo de alimentar-se até no dia de Páscoa com um mísero prato de lentilhas, enganado pelo demônio ao final, infelizmente pereceu. Porque dando crédito ao anjo do inferno transformado em anjo do paraíso, atirou-se em um profundíssimo poço, acreditando na palavra que lhe havia dado o enganador, de que sairia sem nenhum ferimento. E o pior foi que, tirado pelos monges com grande trabalho, não quis persuadir-se em três dias que sobreviveu, de que havia sido uma ilusão, nem a afastou, experimentando ainda em si mesmo seus efeitos funestos. E assim, depois de tantos anos de vida penitente, morreu ao fim impenitente por soberba e apego a suas próprias idéias.

Por isto recomendam os diretores espirituais, desde tempos antigos, uma grande objetividade, um grande amor a Deus em descobrir a verdade e uma profunda humildade tanto naqueles que dirigem como naqueles que vivem ou viveram experiências de aparência sobrenatural.

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