Fátima, 13 de agosto de 1917

Visões e o seqüestro

Em agosto, Jacinta começou a ter visões proféticas. Certo dia, tendo terminado de rezar com o irmão e a prima no Cabeço, levantou-se e disse a Lúcia:

- Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente a chorar com fome e sem nada para comer? E o Santo Padre numa igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com ele?

Nas visões de Jacinta sempre havia coisas sobre o Papa (embora não soubesse qual Papa), e ela ficava tão perturbada, que queria contar a todos, para que assim rezassem constantemente por ele.

- Posso dizer que vi o Santo Padre e toda aquela gente?

- Não! - respondia Lúcia. Não vês que isso faz parte do segredo? E que por aí logo se descobria?

Mais uma vez, estando os três à beira do poço, Jacinta fitava o espaço e então disse a Lúcia:

- Não viste o Santo Padre?

- Não!

- Não sei como foi! Eu vi o Santo Padre numa casa muito grande, de joelhos, diante de uma mesa, com as mãos na cara, a chorar. Fora da casa estava muita gente e uns atiravam-lhe pedras, outros rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feitas. Coitadinho do Santo Padre! Temos que pedir muito por ele!

Ao mesmo tempo, tanto a família como os curiosos atormentavam as crianças:

- Ainda por aqui, ainda não foste para o Céu?

- E a tal mulherzica já veio outra vez passear por cima das azinheiras?

- Achas que acredito nas tuas mentiras?

Também os sacerdotes as afligiam, e muito. Porém, de vez em quando aparecia algum que os ensinava, animando-os e confortando-os. Um deles disse a Lúcia:

- A menina deve amar muito a Nosso Senhor por tantas graças e benefícios que lhe está concedendo.

Estas palavras, ditas com tanta bondade, gravaram-se tão intimamente na sua alma, que a pequena dizia repetidas vezes, ensinando também aos priminhos:

- Meu Deus, eu Vos amo em agradecimento pelas graças que me tendes concedido.

Marcante para eles foi o aparecimento de Padre Cruz, que conversou longamente com as três crianças, ensinando-lhes muitas jaculatórias, tais como:

- Ó meu Jesus, eu Vos amo!
- Doce Coração de Maria, sede a minha salvação!

Dizia Jacinta:

- Gosto tanto de dizer a Jesus que o amo!... Quando lhe digo muitas vezes, parece que tenho um lume no peito, mas não queima. Gosto tanto de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que nunca me canso de Lhes dizer que os amo!

Mas, enquanto isso, o governo anticlerical via os três confidentes de Nossa Senhora como perturbadores da ordem pública.

No dia 11 de agosto, Lúcia foi com o tio e o pai para Ourém, onde foram inquiridos pelo administrador. No dia seguinte, um domingo, já se avolumava o povo em Aljustrel, à espera da aparição do mês. Ao entardecer, três homens vindos de Ourém interrogaram acidamente as crianças, ameaçando-as de morte caso insistissem em guardar silêncio sobre o segredo. Na manhã do dia 13, o próprio administrador apareceu na casa de tio Marto, dizendo desejar ir até o local do milagre. Colocou as crianças em seu carro, para levá-las à Cova da Iria; disse que poderiam passar antes em Fátima, para o Prior fazer-lhes algumas perguntas. Foi assim realmente, porém, partindo da casa do Prior, a carruagem fez uma curva na direção oposta: estavam indo para Ourém!

Enquanto isso, na Cova da Iria os peregrinos que rezavam o terço ouviram um murmúrio e um ruído como de trovão; viram um relampejar de luz e uma nuvenzinha frágil vindo do leste, branca e transparente, que flutuou e pousou levemente sobre a azinheira. Maravilhados e surpreendidos, muitos observaram que o rosto das pessoas parecia brilhar com as cores do arco-íris e as roupas ficaram manchadas de vermelho, amarelo, azul e alaranjado. A folhagem das árvores e arbustos parecia coberta de flores brilhantes, em vez de folhas, e até a terra seca estava coberta de cores alegres. A Senhora viera, sem dúvida. Mas não encontrou as crianças. Pouco depois, a nuvenzinha se elevou novamente e se dissipou no céu.

Em Ourém, o administrador interrogou os três pastorinhos, mandando-os depois encarcerar na mesma cela dos presos. Assustados com a situação, desapontados por não terem podido ir à Cova, tristes com a expectativa da Senhora não mais lhes aparecer, ofereciam todo esse sofrimento a Deus, em espírito de reparação. Rezaram um terço, acompanhados pelos prisioneiros, e chegaram a brincar um pouco com eles, até que foram chamados novamente à presença do administrador. Ameaçados de serem jogados num caldeirão de azeite quente, nem assim as crianças abriram a boca para revelar o segredo da Senhora. Os três passaram a noite na casa do administrador. No dia seguinte, depois de mais um interrogatório frustrado, foram levados de volta a Fátima.

(Foto: Pastorinhos na Cova da Iria)

Antes de irem para casa, os pastorinhos foram ao local das aparições para rezar o terço diante da árvore. Causou pena ver o estado da azinheira, com mais galhos do que folhas. Perto dela estava uma mesa com dois castiçais e algumas flores, levadas para ali no dia 13 por Maria Carreira. Muitas pessoas haviam lançado sobre essa mesa algumas moedas, cuja aplicação Lúcia ficou de perguntar à Senhora em 13 de setembro.

Obs.: este texto foi composto por meio de pesquisas em vários livros sobre Nossa Senhora de Fátima. Por favor: se for reproduzi-lo, indique o endereço desta página como fonte. Obrigada!


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