Fátima, 13 de maio de 1917

A Senhora mais brilhante que o sol

Um dos lugares prediletos das crianças pastoras ficava nas terras do pai de Lúcia. Era um pequeno vale, chamado Cova da Iria. Os pastorinhos brincavam e cantavam cantigas daquele tempo, como esta:

Amo a Deus no Céu,
Amo-o também na terra;
Amo o campo, as flores,
Amo as ovelhas na serra.

Com os meus cordeirinhos
Eu aprendi a saltar.
Sou a alegria da serra
E sou o lírio do vale

Sou uma pobre pastora
Rezo sempre a Maria.
No meio do meu rebanho
Sou o sol do meio-dia.

Ó, i, ó ái!
Quem me dera ver-te agora!
Ó, i, ó ái!
Meu Jesus, já nesta hora!

Mas depois das experiências com o Anjo, eles já não cantavam com o mesmo entusiasmo de antes. Já não eram os mesmos. Além disso, os problemas de saúde da mãe de Lúcia, e a guerra que se desenrolava na Europa, refletindo-se na vida da pequena vila, trouxe para os pequenos muitos sofrimentos; eles, porém, lembravam-se das palavras do Anjo e tudo ofereciam:

- Meu Deus, ofereço-Vos todos estes sacrifícios e sofrimentos em reparação pelos pecadores e pela sua conversão.

As crianças tinham agora consciência de que existia um mundo angustiado, às voltas com o incompreensível mistério do sofrimento.

No dia 13 de maio de 1917, um domingo, os pais de Jacinta e Francisco planejaram ir a uma feira próxima para fazer compras, e mandaram as crianças à missa em Fátima. Era um dia muito bonito, e já passava do meio-dia quando os pastorinhos conduziram as ovelhas até a Cova da Iria, passando então a se entreter na construção de uma casinha de pedras.

Estavam entretidos nesse trabalho, quando foram surpreendidos por um raio de luz, que lhes pareceu um relâmpago. Correram para se abrigar, quando um segundo relâmpago os fez afastarem-se da árvore, e então pararam pasmados. Bem diante deles, na copa de uma azinheira de cerca de um metro de altura, viram uma esfera de luz e, no centro, uma Senhora, "vestida toda de branco, mais brilhante que o sol, espargindo luz, mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio d''água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente", nas palavras de Lúcia. Seu rosto era de uma beleza indescritível. Tinha as mãos juntas, em atitude de quem reza, apoiadas no peito; da mão direita pendia um terço. As vestes pareciam ser feitas unicamente de luz. A túnica era branca, como branco era o manto, orlado de uma luz ainda mais intensa a reluzir como outro, que lhe cobria a cabeça e lhe descia até aos pés. Não se lhe viam o cabelo nem as orelhas. Era impossível fixar os olhos em seu rosto, pois sua luz os cegava. Fascinadas, aproximaram-se tanto que se colocaram dentro do círculo de luz que a acompanhava.

«Não tenhais medo. Eu não vos faço mal»

As crianças não sentiam medo, o que as assustara fora somente o "relâmpago" e o receio da trovoada. Uma grande alegria e paz inundavam suas alminhas. Refeita do susto, Lúcia perguntou:

- De onde é vossemecê?

«Sou do Céu!»

- E que é que vossemecê me quer?

«Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois direi quem sou e o que quero. E voltarei ainda aqui uma sétima vez.»

- E eu também vou para o Céu?

«Sim, vais»

- Que felicidade! Ir para o Céu!... E a Jacinta?

«Também.»

- E o Francisco?

«Também irá, mas terá de rezar muitos terços.»

O olhar da formosa Senhora parecia agora fixar magoado o pastorinho que nada ouvia e não via distintamente a Celeste Visão.

- Ó Lúcia, eu não vejo nada... Arruma-lhe uma pedra, a ver se é gente ou não!

"Que idéia!... Atirar uma pedra a uma Senhora tão bonita e tão boa!", pensa Lúcia. Mas perguntou:

- Então vossemecê é a Nossa Senhora do Céu e o Francisco não a pode ver?

«Ele que reze o terço e assim também me verá.»

Lúcia voltou-se para o primo:

- Olha, Francisco, a Senhora diz que rezes o terço e já a podes ver.

E o pequeno, começando a rezar, logo goza da presença da Virgem Santíssima. Entretanto, ele não podia esquecer as ovelhas que andavam na Cova e se preocupava que não comessem a plantação que havia por perto.

- Deixa! - disse Lúcia. A Senhora diz que as ovelhas não os comem.

- Qual não comem!... As ovelhas não comerem os chícharos?

- Deixa, deixa, a Senhora lá sabe!

- Ó Lúcia - manifestou-se Jacinta - pergunta à Senhora se tem fome. Ainda ali temos broa e queijo... E oferece-lhe um cordeirinho...

Mas Lúcia se lembrou de duas moças, amigas de suas irmãos, que há pouco haviam morrido.

- A Maria do Rosário do José das Neves está no Céu?

«Sim.»

- E a Amélia?

«Está no Purgatório até o fim do mundo.»

Que pena sentiu Lúcia! Também a Senhora parecia triste ao perguntar:

«Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser mandar-vos em ato de reparação pelos pecados com que é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?»

- Sim, queremos! - respondeu Lúcia, em nome dos três.

«Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.»

Ao dizer "a graça de Deus", a Senhora abriu pela primeira vez as mãos e delas saíram feixes de luz muito intensa, cujo reflexo envolveu as crianças, penetrou-lhes no peito e atingiu-lhes o mais íntimo da alma. Conta Lúcia que essa luz os fez "ver a nós mesmos em Deus, mais claramente do que nos vemos no melhor dos espelhos".

Por um impulso irresistível, prostraram-se de joelhos e começaram a repetir intimamente: "Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento".

A Senhora esperou que terminassem e então disse:

«Rezai o terço todos os dias, para alcançar a Paz para o Mundo e o fim da guerra.»

Em seguida, foi-se elevando suavemente da azinheira, subindo em direção ao nascente, até desaparecer. As crianças permaneceram um longo tempo de olhos fixos no céu. Estavam silenciosas e pensativas, porém não se sentiam cansadas e abatidas, como ficavam ao ver o Anjo da Paz. Sentiam-se leves como pássaros. E logo viram, como dissera a Senhora, que as ovelhinhas não haviam tocado nos feijões e nos chícharos.

- Ai que Senhora tão bonita! - exclamava Jacinta repetidas vezes.

- Estou mesmo a ver que ainda vais dizer a alguém - dizia-lhe Lúcia.- Não digo nada a ninguém; está descansada.

Esquecida, porém, de todos os seus propósitos e recomendações da prima, Jacinta correu para a mãe e gritou toda alvoroçada:

- Ó mãe, vi hoje Nossa Senhora na Cova da Iria!

- Credo, filha! És uma boa santa para veres Nossa Senhora.

Mas Jacinta insistiu e se pôs a contar os detalhes de tudo o que havia acontecido, arrematando:

- Ó mãe, é preciso rezar o terço todos os dias... a Senhora disse isso à Lúcia. E disse também que nos levava todos três para o Céu, a Lúcia, o Francisco e mais eu... e mais outras coisas disse que eu não sei, mas que a Lúcia sabe... Quando Ela entrou pelo céu dentro, parece que as portas se fecharam com tanta pressa que até os pés iam ficando de fora, entalados... Era tão lindo o céu!... Havia lá tantas rosas albardeiras!...

Obs.: este texto foi composto por meio de pesquisas em vários livros sobre Nossa Senhora de Fátima. Por favor: se for reproduzi-lo, indique o endereço desta página como fonte. Obrigada!


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