Fátima, 13 de outubro de 1917

O Milagre do Sol

Em todo o país de Portugal se falava nas Aparições de Fátima e sobretudo no milagre esperado em outubro. Os inimigos da Igreja se riam dessa profecia e dos simplórios que acreditavam nela. Não podendo deixar de cobrir tal notícia, o jornalista Avelino de Almeida, o mais conceituado de Portugal na época, escrevia na edição de 13 de outubro do jornal O Século:

Que não se ofendam as almas piedosas nem se assustem os corações crentes e puros (...) Este é apenas um artigo de jornal sobre um acontecimento que não é novidade na história do catolicismo... Alguns o encaram como uma mensagem do céu e da graça. Outros vêem nele a prova evidente de que o espírito de superstição e de fanatismo lançou raízes tão profundas que será difícil, se não de todo impossível, destruí-lo. (...) Segundo o que afirmam as crianças, a Virgem aparece sobre uma azinheira, rodeada de uma nuvem por todos os lados. É tão poderosa a sugestão coletiva, ali causada pelo sobrenatural e mantida por uma força sobre-humana, que os olhos se enchem de lágrimas, as faces se tornam pálidas como cadáveres, homens e mulheres caem de joelhos, cantando hinos e rezando juntos o terço."

Em Fátima e Aljustrel, onde menos se dava fé às palavras dos pastorinhos videntes, reinava um verdadeiro pavor: temia-se que, não acontecendo o tal milagre prometido, o povo lhes queimasse as casas e os matasse. A mãe de Lúcia acordou-a no dia 12, mal nascido o sol:

- Ó Lúcia, é melhor irmos à confissão. Dizem que havemos de morrer amanhã na Cova da Iria... Se a Senhora não faz o Milagre, o povo mata-nos. Portanto é melhor que nos confessemos, a fim de estarmos preparadas para a morte...

Mas Lúcia respondia com toda a calma:

- Se a mãe quer se confessar, eu vou também; mas não por este motivo. Não tenho medo que nos matem. Estou certíssima que a Senhora há de fazer amanhã tudo o que prometeu.

O dia 13 de outubro amanheceu com uma chuva torrencial. Havia cerca de 70 mil pessoas na Cova da Iria. Pelo caminho, como no mês anterior, muitos se aproximavam dos pastorinhos pedindo graças e curas. A água da chuva escorria por suas roupas, e as pessoas enlameadas até os joelhos cantavam hinos. Um dos padres que passara a noite toda na chuva e na lama, de tempos em tempos consultava nervosamente o relógio. Ao aproximar-se a hora da aparição, todo o povo rezava o terço, até que Lúcia, impulsivamente, disse que fechassem os guarda-chuvas. E, apesar da chuva que ainda caía, um por um os presentes obedeceram. O padre olhou novamente para o relógio depois de alguns instantes e disse:

- Já passou do meio-dia. Fora com tudo isto! É tudo uma ilusão!

Começou a empurrar os três pequenos videntes com as mãos e Lúcia, quase a chorar, recusou-se a sair do lugar.

- Quem quiser ir-se embora, que se vá, que eu não vou! Nossa Senhora disse que vinha. Veio das outras vezes e agora também há de vir.

Já se ouviam queixas e murmúrios de desapontamento entre os presentes, quando Lúcia olhou para o nascente e disse a Jacinta:

- Ó Jacinta, ajoelha-te que já lá vem Nossa Senhora! Já vi o relâmpago.

- Vê bem, filha! Olha que não te enganes! - disse Maria Rosa. Mas Lúcia nem ouviu a recomendação. As pessoas mais próximas já notaram que suas feições se tornavam coradas e de uma beleza transparente. Olhava agora arrebatada para a Senhora.

- Que é que Vossemecê me quer?

«Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra. Sou a Senhora do Rosário. Que continuem a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas.»

- Tenho muitas coisas para lhe pedir: se curava uns doentes, se convertia uns pecadores...

«Uns, sim; outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados.»

E o rosto da Senhora tomou um ar sério:

«Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.»

- Não me queres mais nada?

«Não te quero mais nada.»

- E eu também não quero mais nada.

Despedindo-se, a Senhora abriu as mãos, como das outras vezes, e o brilho que delas saía subia até onde devia estar o sol. A multidão viu as nuvens se abrirem e o sol aparecer entre elas, no azul do céu, como um disco luminoso. Muitos ouviram Lúcia gritar:

- Olhem para o sol!

porém, ela estava em êxtase e não se recorda de ter dito isso, pois estava totalmente absorta em outras visões que se sucederam...

Conta Lúcia: "desaparecida Nossa Senhora na imensidade do firmamento, vimos ao lado do sol São José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco com um manto azul. São José com o Menino pareciam abençoar o mundo, pois faziam com as mãos uns gestos em forma de cruz."

E somente Lúcia teve a visão seguinte: "Pouco depois, desvanecida essa aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora que me dava a idéia de ser Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor parecia abençoar o mundo da mesma forma que São José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo".

Enquanto isso, a multidão presenciava o milagre prometido por Nossa Senhora: o sol rompia as nuvens e, bem no zênite, na posição de meio-dia, brilhava como um disco de prata. Era possível realmente olhar para ele, sem que sua luz ofuscasse. Isso foi por um instante. Todos ainda olhavam para o sol, assombrados, quando ele começou a "dançar", segundo a descrição das pessoas: ele começou a girar sobre si mesmo, como uma bola de fogo, e então parou. Logo voltou a girar, mas velozmente. Ainda girando, suas bordas ficaram escarlates e começaram a lançar chamas por todo o céu, e com isso sua luz se refletia em tudo e em todos, com as diferentes cores do espectro solar. Ainda girando rapidamente, e espargindo chamas coloridas, por três vezes o sol pareceu desprender-se do céu e precipitar-se em zigue-zague sobre a multidão.

Vitral representando o Milagre do Sol

Muitos julgavam ser o fim do mundo, e as pessoas se ajoelhavam na lama pedindo perdão de seus pecados. Houve quem fizesse confissão pública em altos brados, e alguns dos que haviam ido até a Cova para fazer troça dos crédulos prostraram-se em terra entre soluços e orações desajeitadas. O fenômeno durou por uns dez minutos, e depois, elevando-se em zigue-zague, o sol voltou a sua posição normal e brilhante, ofuscando como o sol comum.

As pessoas se entreolhavam e diziam: "Milagre! Milagre! As crianças tinham razão! Nossa Senhora fez o milagre! Bendito seja Deus! Bendita seja Nossa Senhora!" Muitos riam, outros choravam de alegria, e houve quem notasse que suas roupas se haviam secado subitamente.

Soube-se que o fenômeno foi visto até a quarenta quilômetros de Fátima. Personalidades como o Prof. Almeida Garret e membros da nobreza de Portugal registraram seu testemunho. A imprensa anticlerical foi obrigada pelos fatos a noticiar o fenômeno. Escreveu o mesmo jornalista Avelino de Almeida, que esteve presente na Cova da Iria:

Carta a alguém que pede um testemunho insuspeito

(...) Foste um crente na tua juventude e deixaste de sê-lo. Pessoas de família arrastaram-te a Fátima, no vagalhão colossal daquele povo que ali se juntou a 13 de outubro. O teu racionalismo sofreu um formidável embate e queres estabelecer uma opinião segura socorrendo-te de depoimentos insuspeitos como o meu, pois que estive lá apenas no desempenho de uma missão bem difícil, tal a de relatar imparcialmente para um grande diário, O Século, os fatos que diante de mim se desenrolaram e tudo quanto de curioso e de elucidativo a eles se prendesse. Não ficará por satisfazer o teu desejo, mas decerto que os nossos olhos e os nossos ouvidos não viram nem ouviram coisas diversas, e que raros foram os que ficaram insensíveis à grandeza de semelhante espetáculo, único entre nós e de todo o ponto, digno de meditação e de estudo.

(...) Nas precedentes reuniões de fiéis, não faltou quem tivesse suposto ver singularidades astronômicas e atmosféricas que se tomaram como indício da imediata intervenção divina. Houve quem falasse de súbitos abaixamentos de temperatura, da cintilação de estrelas em pleno meio-dia e de nuvens lindas e jamais vistas em torno do sol. Houve quem repetisse e propalasse comovidamente que a Senhora recomendava penitência, que pretendia a ereção de uma capela naquele local, que em 13 de outubro manifestaria, por intermédio de uma prova sensível a todos, a infinita bondade e a onipotência de Deus...

E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumurosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva idéia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora prenunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei -- disco de prata fosca -- em pleno zênite aparecer e começar dançando num bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestia sucessivamente a superfície solar...

(...) Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades, que a compostura da multidão que superabundavam os campônios foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhê-las as demonstrações do mais intenso carinho por parte daquele povo que ajoelhou, se descobria e rezou a seu mandado ao aproximar-se a hora mística e suspirada do contato entre o céu e a terra...

Milagre, como gritava o povo; fenômeno natural, como dizem sábios? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é com a Ciência e com a Igreja...

Era o fim glorioso das aparições de Fátima. Mas agora podia começar o trabalho de investigação oficial da Igreja e tornava-se ainda mais importante o testemunho dos pastorinhos.

Obs.: este texto foi composto por meio de pesquisas em vários livros sobre Nossa Senhora de Fátima. Por favor: se for reproduzi-lo, indique o endereço desta página como fonte. Obrigada!


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